Histórias da Mariani

Histórias duma fulana de meia idade que não tem mais com que se entreter do que escrever sobre qualquer assunto seja ele qual for, desde que não seja verídico!

domingo, outubro 22, 2006

Ainda assim

Eu sou tão lenta de compreensão que só hoje é que percebi que eu posso mudar tudo em mim mas nada nos outros. O que me parece uma evidência tão do senso comum que eu própria já a devia ter assimilado há muito tempo atrás.

Cada um faz da sua vida o que quiser. Cada um muda consoante precisar. Para se dar, para se defender e também para amar. E para sobreviver. Hoje estou bem como estou mas se calhar amanhã já não. E nada me faz tanto sentido agora como as palavras do poeta, “que seja eterno enquanto dure”.

O meu "eu" de hoje é uma invenção minha que só interessa a quem se relaciona comigo no presente. Provavelmente enojaria alguns dos que já se relacionaram comigo no passado e muito provavelmente vai acabar por me alienar de mais alguns no futuro. Mas de todos esses, fantasmas do passado, realidades do presente e surrealidades do futuro, a única que sabe o que eu sou, de onde venho e para onde vou, sou eu mesma.

E se digo que neste momento não sei qual é o meu caminho, é mesmo porque não o tenho claro em mim. Não o vislumbro ainda. Tomara eu conseguir aperceber-me onde pára a minha vontade para ir ter com ela a correr. Vontade de correr não me falta, falta-me é direccionamento, e sentido de orientação mas esse também só me seria necessário caso soubesse onde fica o que eu pretendo que seja o início de mais uma etapa da minha vida.

Procuro tempos de acalmia. O que não é equivalente a tempos de isolamento, embora seja esse o preço a pagar se for a única forma de me tranquilizar. Cada vez mais, em cada dia que passa, apercebo-me do que não quero e às vezes a minha verdade chega-me duma forma estranhamente assustadora.

Haja coragem para erguer o espelho e ver… e eliminar o que não gosto, o que me faz mal, o que já não me diz nada. É que eu já não sou igual a quem eu era, apesar de ter saudades do que já fui.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Crises

Por andas ó mulher fantasma? Que eu te sinto e que te vejo (e te desejo) mas não te encontro em lado nenhum? Que chamar, que clamor, que vontade é esta que se ergue em mim e que me desatina tanto assim?

As vontades tocam-se, cruzam-se e descruzam-se e eu ando à procura do meu norte. Sendo desorientada por natureza possivelmente levar-me-á uma vida inteira até o encontrar. Mesmo aplicando na demanda toda a força dos meus sentidos, às vezes acho que não chegarei lá…

Devia ser melhor do que sou…

(Estamos em época de crises... deve ser da mudança do tempo, das repetições temporais, ou algo assim...)

sexta-feira, outubro 13, 2006

Choque térmico

Mas o que foi que me deu para um dia achar que podia… voar? Daqui até ao sítio mais distante e lá abrir os braços e abraçar o mar. Embrenhar-me no sabor salgado da água, envolver-me no calor tépido das ondas… mas não pode ser!

Tenho asas mas não posso voar. Preferia não as ter.
O meu coração é grande e flexível. Preferia tê-lo duro como pedra.
Vejo o mundo de forma diferente. Preferia nem ver.
Vivo… (de que forma?...) até morrer…

O mau começa quando se olha do outro lado do que é bom.
Por trás, bem escondido, está lá. O negro, o frio, a ausência, o vazio.

(Porra! Detesto sentir-me assim!)

quarta-feira, outubro 11, 2006

Equívocos

(O humor muda, é como a lua. Estranha-se sempre porque não está onde supúnhamos que estaria e a sua inconstância desnorteia-nos. Há pedras basilares em mim, mas o humor não é uma delas…)

Veratruz assomou-se daquele beco sem saída perdido no meio da imensidão da cidade sem nome. Esta noite e mais uma vez ela tornava-se caçadora e a sua presa dentro em pouco estaria ali à sua mercê. Usando-se do seu faro apurado prosseguiu em busca daquele que esta noite enfrentaria. O assunto nem lhe era particularmente agradável pois tratava-se de um ajuste de contas familiar e ela preferia sempre as presas anónimas. Sentia-se vulnerável perante rostos conhecidos e uma amazona lunar não pode nem deve baixar nunca a sua guarda. Abanou a cabeça para não pensar mais naquele que hoje seria o seu alvo e continuou a embrenhar-se na escuridão do beco sem saída.

À medida que ia avançando sentia a presença dele ali. Tinha essa vantagem sobre os seus adversários pois como todas as amazonas lunares ela pressentia a presença de qualquer outro ser sempre muito antes de o ver. Cerrou o punho no seu sabre de cristal (soa meio piroso assim? Mas a mim parece-me bem visualizar uma lâmina altamente cortante e transparente… e se fosse de diamante? Se calhar era muito pesada depois… e ser meramente de vidro parece mal, portanto fica mesmo assim!)

Ali estava ele encostado contra a parede fumando um cigarro. O homem era um belo exemplar, disso não tinha a mínima dúvida. Era alto, de porte atlético e muito bem parecido com uns olhos de cão vadio que apelavam a qualquer mulher que dele se aproximasse. Dentro dos parâmetros da fisicalidade humana ele estava sem dúvida na escala máxima. Por instantes hesitou, e ele levantou o seu olhar para ela. Houve um segundo só, um segundo de reconhecimento mútuo mas era dela a vantagem, como é sempre de quem ataca de surpresa. Após esse brevíssimo instante em que ele esboçou um sorriso para ela, o sabre levantou-se e cortou o ar cerrado daquela noite fria, juntamente com a cabeça do homem que agora jazia aos pés de Veratruz. Ajoelhou-se perante o corpo tombado e como sempre fazia untou-se com o sangue que dele se esvaía.

De repente sentiu uma presença atrás de si, e mesmo sem se levantar ou virar soube que a sua missão estava cumprida. Suspirou de alivio e virou-se adivinhando o que a esperava. Mas… estampado na cara daquela por quem tinha acabado de efectuar o serviço viu um olhar de horror! "Luadeverão, agora está tudo acabado minha irmã!" disse com uma voz que lhe soou já pouco tranquila. Luadeverão nem lhe dirigiu palavra! Agarrou-se ao corpo do homem decepado chorando lágrimas gordas e quentes como Veratruz nunca tinha visto! (Ai que esta cena agora assim de repente me parece tão familiar… queres ver que já escrevi sobre isto?! Repetem-se as visões em mim? Estarei ficando senil? Que cena mais estranha!)

"Mas… minha irmã diz-me … não era isto que querias?!" perguntou Veratruz tentando desesperadamente recuperar o sentido da missão que tinha acabado de cumprir. "Nãããoooo…" murmurou Luadeverão virando o rosto contorcido pela dor para Veratruz que se sentia cada vez mais invadida pela enormidade do erro que acabara de cometer. "Mas… e todas as recriminações que lhe fazias? E todas as vezes que me dizias que ele tanto te fazia sofrer? E as vezes que lhe querias fugir para não mais voltar? E as vezes que no teu íntimo desejaste a sua morte por ele tão mal te tratar?" insistiu Veratruz. "Nããããooooo!!" gritou Luadeverão agarrando-se ao já cadáver do seu amante. "Eu amava este homem! Amava-o de paixão! Sofria por amor! Não percebeste nada!" continuou de forma violenta. "Desaparece-me da frente! Nunca mais te quero ver! E tu para mim morreste! E hoje choro uma morte dupla! Do meu amante e da minha irmã que eu tanto adorava! Tu mataste-os aos dois!"

(E a luz apaga-se sobre esta cena malfadada de amores ilícitos e mortes trágicas! E a única lição que daqui retiro hoje, para mim que já a sei de cor e salteado mas preciso de a relembrar todos os dias, é apenas de que nem tudo o que parece é…)

segunda-feira, outubro 09, 2006

Perguntas sem resposta

Mãe, porque é que nunca me disseste que gostavas muito de mim? Porque é que nunca me disseste que eu era a mais maravilhosa flor do teu jardim? Porque é que nunca me mostraste que o céu está cheio de estrelas mas que eu brilhava mais do que elas todas para ti? Porque é que nunca me chamaste quando te sentias doente ou triste e me disseste que não era por minha causa que estavas assim? Porque é que tantas vezes fugiste para não enfrentar? Para não me enfrentar?...

Hoje choro com saudades da mãe que nunca tive.
Da mãe que a minha não pode ou não soube ser.
Sinto a falta de um abraço de amor incondicional.
Sem perguntas, sem dúvidas, sem questões, sem condições.

Um "talvez" não chega… eu sei, dentro de mim, que quem ama, ama sempre, quer sempre, mostra sempre e incondicionalmente.

Como uma mãe ama um filho… mas não a minha.
A minha nunca soube amar assim.

domingo, outubro 08, 2006

Geometria

O amor devia ser um círculo mas não é. Devia ser uno, ininterrupto e incorruptível. Com uma fronteira clara e definida. Tudo o que está no interior é amor. E o que está lá fora não interessa. E dentro do círculo devia haver espaço suficiente para dois se sentirem à vontade mas sempre perto. Com o outro sempre na linha do olhar. E se os dois se mantivessem dentro do círculo de qualquer forma qual seria o interesse de olhar para lá da fronteira?

Dois e um círculo à sua volta. Protegendo-os dos outros. Juntando-os mais do que dantes. Dentro da fronteira, sentindo-se em total segurança e com a certeza de que nada pode deitar abaixo aquela barreira. Pelo menos nada que venha de fora. O círculo só se desfaria de dentro para fora, caso um dos dois estivesse farto ou desconfortado ou impaciente ou curioso ou seja qual for o modo que leva um dos dois, ou mesmo ambos, a quererem quebrar a fronteira que os protegia…

Antes pensava que o amor era assim e que a felicidade estava dentro de um círculo. Invisível mas sempre presente. Um eterno casulo onde dois que se encontravam, se escolhiam ou se reconheciam, se abrigavam dos outros, dos que ficam lá fora e que não têm palavra a dizer sobre o círculo do amor que encerra o segredo da intimidade, da partilha e do sentir extremos.

Mas depois caiu-me um triângulo em cima. Vários até. E os triângulos não têm curvas suaves e uniformes, têm arestas pontiagudas que nos ferem e nos transformam. Um triângulo tem várias faces e não concentra. Hoje viramo-nos para uma face e a imagem é uma. Amanhã viramo-nos para outra e a realidade muda. Não gosto de triângulos, nunca gostei. Sempre preferi os círculos.

Mas as minhas preferências redutoras não se aplicam à realidade complexa das relações humanas. Há uns, e depois uns segundos e hoje está tudo bem e amanhã já está tudo mal em imagens de reflexos ambíguos. Não se consegue estar bem dentro dum triângulo. Tem demasiados cantos e podemos ficar esquecidos numa ponta sem luz.

Nunca fui grande coisa a geometria porque não gostava de triângulos. E só hoje é que me apercebi que na matemática das relações humanas um mais um pode muito bem ser igual a três.

Palhaça

Quem é ela, aquela estranha que se senta ali num banco alto, no canto mais escuro da sala? Quem é ela que se encolhe sobre si e estremece com a força dos soluços contidos? Quem é que a mandou ir para ali? Quem a mandou olhar de fora para dentro para vidas que não são as suas? A curiosidade mata… pode não ser hoje, nem amanhã e nem sequer o faz duma vez só. Mata lentamente, estilhaça-nos aos bocadinhos. Hoje um bocadinho, amanhã outro mais.

Ela pediu para ver o que não podia. Pediu para ser o que não queria. Pediu para ter o que não é de ninguém. Agora paga o preço. Está apenas ali, triste, só e abandonada à mercê do choro convulsivo que a dobra.

Uma palhaça. Papel que ninguém quer mas o chapéu é mais largo do que todos nós e a vontade não chega para evitar enfiá-lo. Chapéu de palhaça e orelhas de burro. Sentada no canto, de cara virada para a parede para não ver mais o que continua a ver, mesmo estando já de olhos fechados. Bate agora com a cabeça na parede, chama a dor do impacto para que a distraia dessa outra dor maior. Não funciona. As dores juntam-se e potenciam-se. Dor de corno, dor de alma, dor de impotência para alterar rumos. Nem o seu próprio. Palhaça triste, não percebes o quanto és gozada? Não percebes que os outros não se compadecem perante o que tu queres e desejas? Pelo contrário! Riem-se cada vez mais alto. Risos e choros elevando-se num turbilhão em crescendo provocando uma sinfonia surpreendentemente harmoniosa.

Mulher palhaça! A vida goza contigo desde o dia em que nasceste! Já devias estar habituada! Por mim bem podes continuar aí no canto a dar cabeçadas na parede até que o sangue te cegue, te cale e te sufoque! Vira às costas aos outros se é isso que queres, porque os outros já há muito que viraram as costas para ti! De nada te servem as palavras, e muito menos os sentimentos, não percebes? Há coisas que não mudam nunca. E há coisas que nem se devem tentar mudar nunca! Eles são maiores, sabem mais e duram muito mais do que tu! Que te deu para achares que podias ser diferente? Que podias fazer a diferença? Palhaça desastrada! Se é choros que queres, espera e choros terás no teu funeral. E mesmo assim só se os outros se vergarem perante o estalo derradeiro da morte!

quarta-feira, outubro 04, 2006

A caixa de Pandora

(Estamos em tempos introspectivos. Nada de relevante a não ser para mim. E é uma forma de organizar as ideias sim!)

Sempre soube que alguma coisa havia escondida dentro de mim. Por ela, essa coisa indefinida, eu sentia que era diferente, que não era bem igual a toda a gente. É como um bug num programa informático, um mero bytezeco a mais e a função nem sempre retorna o que se espera. E eu era assim, sabia exactamente o que esperavam de mim, mas nem sempre retornava o que se esperava mesmo sabendo que as consequências não seriam as melhores.

Vivi sempre meio deslocada numa vida que às vezes me parecia que não era a minha. Que eu estava ali emprestada até vir alguém ocupar o meu lugar. Muitas vezes, muitas, limitava-me a deixar-me andar. Algo estava errado mas mesmo assim mantinha a passividade total e absoluta.

Até que um dia, um dia apanhei um choque brutal, frontal! Foi como se me tivesse olhado ao espelho pela primeira vez e me tivesse reconhecido após longos anos de uma prolongada amnésia! “Olha ali eu! Aquela sou eu! Eu sou assim!” E uma sensação de alívio porque afinal eu era normal. Não era igual ao que eu pensava que era mas servia na mesma! E depois desse primeiro choque preparei-me então para abrir a minha caixa de Pandora e deixar sair todos os segredos nela encerrados. Um a um saquei-os de bem lá do fundo e olhei-os nas fuças descaradas. Violência, ciúme, inveja, sexualidade exacerbada, sensualidade ilimitada, desilusão atrás de ilusão revivi tudo de novo mas agora segundo um novo padrão. Foi como se tivesse encontrado o meu eixo que estava claramente fora do sítio. Encaixei-o ali, calibrei-o e depois percebi.

Sempre fui assim mas não me via assim. Estava desfasada de uns nano milímetros mas mesmo assim essa recta que eu via não era de todo onde eu me devia situar. Com um pequeníssimo desvio à esquerda fiquei pronta para reequacionar toda a minha existência miserável, episódio a episódio, desta vez fazendo-se luz onde dantes proliferavam espaços em branco, buracos negros na minha memória, de situações vividas como se fosse outra que não eu!

Hoje sou mais una e mais consistente. Mudei tudo na minha vida, pus tudo em causa. Tinha que o fazer para puder voltar a encaixar as memórias dentro da caixa onde as guardo. Só não sei porque demorei tanto tempo a compreender-me… não sei porque deixei passar tantos anos por cima duma vida que não era para mim. E também não sei porque foi ela que me despertou. Violentamente! Já tinha ouvido falar de cenas similares, de choques mentais de tal forma brutais que a pessoa nunca mais consegue ser o que era antes. Mas comigo foi ao contrário. Eu não era o que sou e agora sou o que devia ter sido sempre! O choque acordou-me, despertou-me, alinhou-me e desnudou-me! E denunciou-me também… perante ela e perante os que mais de perto me seguiam.

E agora? O que faço eu com os danos colaterais da vida da qual saltei fora porque não era a minha? Não sei bem ainda. Não sei se viverei o suficiente para restabelecer uma ordem qualquer nestes dias que correm sem nexo. E nestas noites que passo agoniada com o passado revisitado que volta e meia sobe à superfície por mais que eu o enfie bem lá no fundo da caixa. Sei tão bem o que quero e no entanto é tão difícil de lá chegar… terei força suficiente para continuar a lutar? Terei força para continuar mesmo que o caminho não se abra, não se facilite e não se vislumbre?

(Tanta palavrinha tanta… tanto pensamento conturbado… penso demais, sinto demais! Mas o meu sentir é grande, é intenso e é corajoso… e ele há-de me abrir o caminho, por mais atravancado que ele esteja!)