(Estamos em tempos introspectivos. Nada de relevante a não ser para mim. E é uma forma de organizar as ideias sim!)
Sempre soube que alguma coisa havia escondida dentro de mim. Por ela, essa coisa indefinida, eu sentia que era diferente, que não era bem igual a toda a gente. É como um bug num programa informático, um mero bytezeco a mais e a função nem sempre retorna o que se espera. E eu era assim, sabia exactamente o que esperavam de mim, mas nem sempre retornava o que se esperava mesmo sabendo que as consequências não seriam as melhores.
Vivi sempre meio deslocada numa vida que às vezes me parecia que não era a minha. Que eu estava ali emprestada até vir alguém ocupar o meu lugar. Muitas vezes, muitas, limitava-me a deixar-me andar. Algo estava errado mas mesmo assim mantinha a passividade total e absoluta.
Até que um dia, um dia apanhei um choque brutal, frontal! Foi como se me tivesse olhado ao espelho pela primeira vez e me tivesse reconhecido após longos anos de uma prolongada amnésia! “Olha ali eu! Aquela sou eu! Eu sou assim!” E uma sensação de alívio porque afinal eu era normal. Não era igual ao que eu pensava que era mas servia na mesma! E depois desse primeiro choque preparei-me então para abrir a minha caixa de Pandora e deixar sair todos os segredos nela encerrados. Um a um saquei-os de bem lá do fundo e olhei-os nas fuças descaradas. Violência, ciúme, inveja, sexualidade exacerbada, sensualidade ilimitada, desilusão atrás de ilusão revivi tudo de novo mas agora segundo um novo padrão. Foi como se tivesse encontrado o meu eixo que estava claramente fora do sítio. Encaixei-o ali, calibrei-o e depois percebi.
Sempre fui assim mas não me via assim. Estava desfasada de uns nano milímetros mas mesmo assim essa recta que eu via não era de todo onde eu me devia situar. Com um pequeníssimo desvio à esquerda fiquei pronta para reequacionar toda a minha existência miserável, episódio a episódio, desta vez fazendo-se luz onde dantes proliferavam espaços em branco, buracos negros na minha memória, de situações vividas como se fosse outra que não eu!
Hoje sou mais una e mais consistente. Mudei tudo na minha vida, pus tudo em causa. Tinha que o fazer para puder voltar a encaixar as memórias dentro da caixa onde as guardo. Só não sei porque demorei tanto tempo a compreender-me… não sei porque deixei passar tantos anos por cima duma vida que não era para mim. E também não sei porque foi ela que me despertou. Violentamente! Já tinha ouvido falar de cenas similares, de choques mentais de tal forma brutais que a pessoa nunca mais consegue ser o que era antes. Mas comigo foi ao contrário. Eu não era o que sou e agora sou o que devia ter sido sempre! O choque acordou-me, despertou-me, alinhou-me e desnudou-me! E denunciou-me também… perante ela e perante os que mais de perto me seguiam.
E agora? O que faço eu com os danos colaterais da vida da qual saltei fora porque não era a minha? Não sei bem ainda. Não sei se viverei o suficiente para restabelecer uma ordem qualquer nestes dias que correm sem nexo. E nestas noites que passo agoniada com o passado revisitado que volta e meia sobe à superfície por mais que eu o enfie bem lá no fundo da caixa. Sei tão bem o que quero e no entanto é tão difícil de lá chegar… terei força suficiente para continuar a lutar? Terei força para continuar mesmo que o caminho não se abra, não se facilite e não se vislumbre?
(Tanta palavrinha tanta… tanto pensamento conturbado… penso demais, sinto demais! Mas o meu sentir é grande, é intenso e é corajoso… e ele há-de me abrir o caminho, por mais atravancado que ele esteja!)